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Ter | 15.10.19

Quando Sapporo foi a capital do râguebi

Rui Pedro Silva

 

«Demasiado cedo» é uma expressão que não figura no nosso vocabulário. Se virmos bem, pensámos que queríamos ir ao Japão para o Mundial de Râguebi quatro anos antes e garantimos bilhetes para dois jogos com… vinte meses de antecedência.

Visitar Sapporo pode não estar nas listas de coisas a não perder durante uma visita ao país do sol nascente, mas aproveitar para visitar a cidade de olhos postos no Mundial foi a oportunidade perfeita. Para nós e para milhares de ingleses e australianos.

Austrália-Fiji foi o primeiro jogo do fim de semana

Haver dois jogos em dias consecutivos, logo no primeiro fim-de-semana do Mundial e com dois grandes candidatos ao título, fez de Sapporo a primeira grande capital da competição. E a cidade da prefeitura de Hokkaido, no norte do Japão, mostrou estar preparada para tal.

Por toda a cidade havia referências à competição, inúmeros sítios para ver os jogos (desde a fan zone a vários locais ao longo uma avenida subterrânea) e centenas de voluntários dispostos a ajudar. A Sapporo Dome, a arena que recebeu os dois jogos, é uma das obras de arte no que diz respeito a construções desportivas do país e fez furor nos dias que antecederam a prova graças a um vídeo que mostrava como se transformava em poucas horas caso recebesse jogos de futebol, basebol ou râguebi – mas não está propriamente no coração da cidade.

Sapporo Dome e o espaço exterior para o relvado

Esse não foi um problema. Mesmo que o trânsito tenha sido ligeiramente cansativo, houve inúmeros shuttles a sair de pontos nevrálgicos de Sapporo – com destaque óbvio para a fan zone no Odori Park – que nos levaram até ao magnífico recinto.

As recomendações – não que precisássemos delas – apontavam para uma chegada cedo e nós fizemos-lhes a vontade. É sempre bom entrar no estádio e vê-lo a vestir-se lentamente até estar pronto para o pontapé inicial. Do que não estávamos à espera, sobretudo depois de a passagem pela segurança ter sido tão rápida e eficaz, era das filas intermináveis para as bancas de merchandising e, principalmente, comida (o jogo de sábado calhou em cima da hora de almoço).

Houve quem tenha aproveitado para um banho de sol (e uma sesta?) nas redondezas

O ambiente na arena era, acima de tudo, de orgulho. Notava-se a vontade dos japoneses em mostrar o melhor que tinham – houve atuações de grupos tradicionais locais e outras referências culturais nipónicas – e, ao mesmo tempo, uma vertente pedagógica que ensinava quais eram os momentos-chave de um jogo de râguebi.

Tal como nós, muitos adeptos que ali estavam tinham packs cidade, que, na categoria mais baixa, tinham custado cerca de 100 euros e davam acesso aos dois jogos do fim-de-semana: Austrália-Fiji e Inglaterra-Tonga. Como é natural, o ambiente foi interessante: no primeiro dia havia muitos ingleses a torcer por Fiji e, no segundo, australianos a torcer por Tonga. Afinal, rivalidades ainda são rivalidades. Em qualquer lado do mundo.

Nenhum dos jogos foi espetacular, embora o Austrália-Fiji tenha prometido até ao início da segunda parte. Por outro lado, a organização insistiu em tornar cada momento uma oportunidade de festa. Em alguns casos, percebeu-se que o público não correspondeu, como quando ignoravam os pedidos para repetição de um famoso grito japonês (mais tarde, pela televisão, vimos milhares de espetadores noutros estádios responderem na perfeição), mas de resto sentia-se a alegria contagiante, natural quando a prova ainda está tão no início e o que vai acontecer permanece uma perfeita incógnita.

O «haka» das Fiji chama-se cibi

Há momentos que se tornam inesquecíveis. Os «hakas» adaptados de Fiji e Tonga são os primeiros grandes momentos de interesse mas não há nada que provoque tanta ansiedade e festa como quando há ensaios anunciados. O que mais nos marcou foi, sem grande contestação, quando o fijiano Waisea Nayacalevu intercetou um passe australiano no início da segunda parte e correu mais de 40 metros para o ensaio, com um voo espetacular, na direção dos suplentes que ali aqueciam e já com o público todo de pé, a vibrar de antecipação com aquele lance magnífico que deixava Fiji a ganhar, surpreendentemente, por 21-12. Seria, infelizmente, sol de pouca dura.

O facto de ser uma arena coberta ajudou a tornar o ambiente mais ensurdecedor em alguns momentos, sobretudo com um público japonês que, não sendo o mais educado para o râguebi, está cada vez mais apaixonado pela modalidade. E, claro, não esquece os seus heróis, aplaudindo de pé e com grande estrondo quando o selecionador de Inglaterra, Eddie Jones, filho de uma japonesa e grande obreiro da campanha nipónica em 2015, foi anunciado.

Fim de semana fechou com o Inglaterra-Tonga

No meio de tantos momentos inesquecíveis, destacou-se também um último. As dezenas de voluntários que trabalharam nas entradas da Sapporo Dome fizeram uma espécie de corredor nas portas de saída, aguardando pelos mais de 35 mil espetadores que assistiram ao último jogo que a cidade viu. De sorrisos contagiantes, cumprimentavam (com high fives) todos os que iam saindo.

Foi uma dicotomia interessante. Sapporo pode ter sido a primeira capital do Mundial de Râguebi mas também foi a primeira cidade a despedir-se do evento, quando este estava ainda tão no início. Para eles, que tanto tinham feito para garantir que nada faltava, era um orgulho e um momento de enorme felicidade estar ali. E já sentiam saudade. Nós também.

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